domingo

UM CASAMENTO MUITO ESPERADO - RELATO DE UMA NOIVA

O meu dia
Manhã do dia nove de julho de 2010. Noite sem sono. Sono sem descanso. Descanso sem paz. Não foi a véspera dos sonhos. Não foi a véspera com as amigas. Não teve brinde pelo acontecimento do dia seguinte. Não houve festa com as irmãs. Não teve lágrimas de mãe, nem 'zoeira' dos irmão. Sermão de pai? Não. Esqueceram, acharam que não precisava.Oito de julho de 2010O dia começa e com ele as expectativas para o dia seguinte. A vontade é fazer tudo correndo para ter um tempinho para relaxar, curtir meu amor nesse nosso último dia antes do dia que marcaria o começo do resto das nossas vidas. Véspera de feriado. Ele decide ir com minha irmã e eu pois quer conhecer o local do nosso casamento. Trânsito em São Paulo. Muito trânsito. Caos, estresse; nos perdemos em algum lugar do Rodoanel na tentativa de chegar ao ABC para buscar o vestido de noiva. Desacostumado, ele faz piadinhas, sorri, um amor! O tempo passa, o trânsito continua, o estresse aumenta o relógio não espera por nós. A paisagem do Rodoanel ajuda. - Nem parece São Paulo - ele diz. Chegamos em Santo André. Tudo parado. São 16h45. A paciência, que hora ou outra se mostrou generosa, começa a vacilar. Oscila. - Mas por que você tinha de comprar um vestido num lugar tão longe? - Não tenho resposta. Uma palavra minha e a situação piora. Minha irmã nos pede calma.



O vestido, a família...
O vestido está apertado. A costureira jura que eu engordei. Eu juro que não. Solta daqui, solta dali. Foi-se uma hora! Perdi a paciência. Pedi que me deixassem sair com o vestido não importasse o estado.20h20Pegar alianças. Pegar o terno. Ir para casa. Dormir juntos? Nem pensar! Não após passar nove - isso mesmo nove - horas dentro de um carro fazendo o que num dia normal levaria três, quatro horas no máximo. Em casa é aquilo: cada um na sua, mãe estressada, gritando o impronunciável à meia noite. Casa cheia, não há espaço. Deito no sofá. Duas e meia da manhã e tudo me dói. E tudo o que eu quis foi um palavra bacana, um carinho, uma felicitação. Não teve.

O dia...
Noite sem sono. Sono sem descanso. Descanso sem paz. Não foi nem de longe a véspera dos sonhos. Mas já é dia nove de julho. Cá estamos. Duas garotinhas, uma garotona. Todas loucas para sair dali e serem bajuladas, nem que fosse por apenas algumas horas. No caminho para o carro o estresse materno. Não me contenho e dou um sermão. - Será que nem no meu dia ela desestressa? Nem hoje ela fica feliz? No dia da noiva foi só alegria. Duas garotinhas fofas e espertas, vestidas de “mamãe quero ser grande”. Duas princesas num dia de rainha. A minha ficha ainda não caiu. - Eu vou casar hoje! Hoje! Mas... e daí? - Não sinto nada. Nadinha mesmo. Café, massagem, banho, unhas, lavar cabelo. Tudo normal. E eu que esperava mais... Algo mais. Coisa de noiva ansiosa. Chega a hora da maquiagem, e num descer e subir de escadas tudo muda.

A tensão sobe...
Meu estômago dói.Entrei na sala de maquiagem calma. O rosto ia se delineando, o nervosismo ia crescendo e meu estômago queimava. Aos poucos a Ana Paula vai desaparecendo. Em seu lugar surge uma noiva. O nervosismo aumenta. Meu coração começou a disparar. Disparou, disparou. Batia tão rápido que me preocupei: “Meu Deus, me ajuda”. Lembrei das crises, das ambulâncias. Tive medo. Respirei. Tirei os fones do bolso, coloquei uma musiquinha e fechei os olhos. Mas eu teria de abri-los. E cada olhada no espelho me dava calafrios, meu estômago pulava, meu coração galopava. Eu sabia que ali, que momento, era o momento do “agora eu sei que vai, não tem mais volta”. Tive medo de desmaiar. Tentei me concentrar e ficar calma. Mirei o espelho novamente. Vi uma mulher adulta, que fraquejava há menos de duas horas do grande passo. A fraqueza era física, não do espírito.

A transformação...
Finalmente deixei a sala de maquiagem, era hora do vestido. “Será que a fotógrafa lembrou de fotografar o meu vestido?”, me perguntei. - Levanta os braços. - Cuidado com a maquiagem! - Olha o cabelo! Parece que voltei à infância. É duro ser noiva. Meu corpo ali, às vistas de mulheres estranhas. “Tomara que passe rápido”, desejei. Pronto! Sou uma noiva vestida de noiva. Que alegria... “Ai não, não posso chorar agora”. “Eu preciso mesmo é de um espelho”, disse a mim mesma. Dessa vez a mulher do outro lado era outra: altiva, segura, senhora de si, feliz! Sim, muito feliz. O sorriso não me deixava mais. Todos no salão queriam ver a noiva. O videografista me disse que toda noiva é rainha no seu dia. Meu reinado acabara de começar!“Tá aí a minha prerrogativa” eu disse. E como tal, me portei. Posa daqui, posa dali. - Vira o rosto, isso! -, - Agora sorri -, - Essa vai ficar demais!- A essa altura eu já me perguntava o que estaria se passando na Maison. “Será que minha família chegou?”, “Será que o noivo já chegou?”, “Será que minhas amigas já chegaram?” “Meu Deus, será que já chegou ALGUÉM”?
O caminho...
Liguei para o meu pai, que me disse que poucas pessoas estavam no local. E garantiu que o noivo, que chegou cedo, olhava o relógio a cada cinco minutos. Resolvi esperar mais. Era cedo, ainda faltava muita gente. Meia hora se passou. Minha irmã me liga: - Suas melhores amigas chegaram. Seu amigo suíço chegou. Veio a Ana não sei de onde, as madrinhas e padrinhos estão aqui, amigos de faculdade, amigos lá de casa... – Ufa! Que felicidade quando ouvi todos aqueles nomes. Se aquelas pessoas que eu adorava estavam lá, não havia mais o que esperar. “Me levem daqui”, pensei ansiosa. Chega meu pai e a primeira pergunta óbvia: - Tá nervosa? – O que você acha meu querido? Mentira! Eu estava calma. Depois de tanta tensão eu estava leve. No carro o caminho parecia muito mais longo. Quinze minutos viraram uma hora inteira...

O momento...
Chegamos, uhuuuuu! Uma mistura de euforia e ansiedade. O carro encosta na entrada da cerimônia. Continuo dentro dele, é preciso organizar a coisa toda! Fila de padrinhos, fila de madrinha, noivo com a mãe, florista, dama de honra, menina das alianças. E haja foto para esses fotógrafos!De repente ouço uma música. “Ai meu Deus é 'Bitter Sweet Symphony. Começou!” Eu tinha conseguido. Finalmente o sonho de começar a cerimônia com aquela música estava se concretizando. Eu só conseguia pensar numa coisa: na entrada dos padrinhos, enfileirados e não em duplas. “Será que a cerimonialista vai lembrar disso?” Será que nem no dia a noiva relaxa?Ah, “Wave” anuncia meu quase marido. Que sensação maravilhosa eu senti. Era real, aquilo estava realmente acontecendo comigo, na minha vida! Mal podia acreditar. E quantas noivas têm a música do próprio marido no casamento? “Spring is here”, ouvida ali, num contexto tão diferente do habitual... quase chorei. Saio do carro. É hora da coroação!Nos primeiros acordes de Handle começamos a andar. Olhei para cada convidado sorrindo. Eu mal podia acreditar que pessoas que eu não via há tanto tempo estavam ali. “Nossa, que felicidade”! Piscadelas, olhadas, sorrisos. Acabou o caminho. Meu grande amor vem ao meu encontro e sussura no meu ouvido:-Baby, você está maravilhosa. Quer casar comigo?



O ápice...
A cerimônia me emocionou, enfraqueceu minha voz. Justo eu! Uma grande amiga de faculdade leu um lindo texto sobre o amor na vida de cada um de nós. Tudo parecia surreal. Era dia, mas não estava claro. Não era noite, mas já escurecia. Entardecer. Achei poético. A árvores ganhando contornos sombreados, aquelas flores brancas contrastando com o finzinho do dia. O padre pede as alianças. Meu coração dispara, olho meu noivo, ele me olha. Nossos olhos enchem d'água. Começa a tocar Dante's prayer, a música mais especial da nossa cerimônia: minha sobrinha dá os primeiros passos. “Meu Deus, que coisa mais graciosa. Linda!” Sem dúvida um dos momentos mais inesquecíveis do dia. Estendemos nossas mãos, dissemos nossos votos, trocamos alianças. E ao fundo, aquela voz suave, aquela música profunda continuava baixinho. A música subiu. Erguemos nossos olhos, nos beijamos. E aquele beijo parecia encerrar toda a ansiedade, estresse, medo ou incerteza que ainda pudesse existir. Casados! Casados! Casados! E aqui estamos nós, depois de tudo... Casados! Na saída: Allegria, Allegria!Um dia como esse não é todo dia que acontece.

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